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Nossos celulares permitem que nos fisguem como tolos

Publicado em 20 de Feb de 2018 por Redação |COMENTE

Não deve soar estranho que em grande parte da nossa vida agimos e consumimos de forma irracional, não fazendo o que é melhor para nós, mas poucos desenvolveram uma teoria acolhendo essa realidade



Por  Claudio Garcia*

Nós, seres humanos, somos cheios de tendências e fraquezas. Compramos mais alimentos quando vamos ao supermercado com fome e nos comprometemos com pagamentos de academias de ginástica mas não aparecemos nelas por meses. O interessante é que nem passa pela nossa cabeça que uma grande parte da economia é movimentada pela exploração desses nossas falhas em agir racionalmente e fazer aquilo que seria o melhor para nós.

 

"Espere para ser manipulado", falam os prêmios Nobel George Akerlof e Robert Shiller em seu livro "Phishing for Phools", que tem como subtítulo "A Economia da Manipulação e da Decepção". Se existe alguma forma de sermos "fisgados" por meio das nossas fraquezas, alguém irá tirar vantagem econômica disso, dizem os autores, no que se referem a um novo tipo identificado de equilíbrio econômico ou social que eles chamam de "phishing equilibrium".

 

Intencionalmente eles trocam as iniciais de "F" para "PH" emprestando o termo "phish " utilizado em tecnologia para a prática de atrair (ou fisgar) pessoas para fraudes na internet. "Phool", segundo eles, em vez de uma simples tradução para tolos, significa qualquer pessoa que é fisgada com êxito. Não deve soar estranho que em grande parte da nossa vida agimos e consumimos de forma irracional, não fazendo o que é melhor para nós, mas poucos desenvolveram uma teoria acolhendo essa realidade.Um bom exemplo dessa dinâmica é como a grande parte dos usuários de celular interagem com os seus aparelhinhos.

Algumas pesquisas sugerem que o usuário médio abre aplicativos 150 vezes por dia, ou seja, uma vez a cada 7 minutos se excluirmos o tempo que dormimos. A frequência do hábito e a quantidade de interrupções que isso causa obviamente não deve ser bom para nós. Mas esse hábito, de certa forma irracional, gera receitas astronômicas para algumas das maiores empresas do mundo que dependem de acessos de indivíduos irracionais como nós para gerar visitas em seus sites e aplicativos e com isso vender publicidade para seus clientes. Um bom exemplo do "phishing equilibrium".


Mas realidades como essas podem ser combatidas, não de forma fácil, já que mudar hábitos é algo bem difícil, ainda mais quando setores econômicos inteiros dependem delas. Um atalho é evidenciar o padrão. É o que está tentando fazer Tristan Harris, ex-empregado do Google e co-fundador do Time Well Spent (tempo bem gasto), que pretende estimular o "design ético" de softwares, para que empresas pensem suas tecnologias de forma que esta cause um impacto positivo na vida dos seus usuários.

Em uma entrevista para "The Atlantic", Harris comenta que, apesar de muitos atribuírem o nosso vício tecnológico a falhas pessoais como a baixa força de vontade, "precisamos reconhecer que há milhares de pessoas no outro lado da tela tentando quebrar qualquer senso de responsabilidade que podemos manter".

Se por um lado é difícil mudar o hábito, seria muito mais rápido se as empresas adotassem práticas empresariais mais justas. Mas o custo de mudar esse padrão é altíssimo para elas: como justificar seus valores de mercado se as pessoas reduzirem acessos aos seus sites e apps? Custa muito mais para sociedade se não mudarem.Observando o que está acontecendo com a indústria de alimentos e bebidas, podemos ter uma ideia de que processos para mudar essas realidades são longos.

Apesar dos conhecidos malefícios de muitos dos ingredientes em produtos industrializados, o processo de adoção de novos ingredientes é lento. Está acontecendo, mas é devagar e mesmo as pessoas reconhecendo que não é saudável, demoram para mudar os seus hábitos de consumo gerando custos sociais enormes.

Existem vários movimentos, como B-Corps (Benefit Corporations) ou Capitalismo Consciente, que suportam e avaliam o quanto o modelo de negócio de seus membros impactam positivamente a sociedade. Isso vai além da famosa Responsabilidade Social Corporativa, que apesar de bem intencionada em muitos dos casos, não necessariamente compromete o modelo de negócio da empresa a um impacto positivo.

Mark Zuckerberg, apesar do mérito de ter criado a Chan Zuckerberg Initiative, que pretende desenvolver o potencial humano e promover oportunidades iguais para todos, ainda depende do nosso vício em celulares para manter sua fortuna.Esses movimentos citados acima são bem-vindos e irão ajudar no processo de equilíbrio de mercado. Mas precisamos, como falaram Akerlof e Schiller em seu livro, estar atentos. Existe uma tendência natural de sermos "fisgados como tolos" e alguém de alguma forma irá se aproveitar disso.

*Vice-presidente executivo de estratégia e desenvolvimento corporativo da consultoria LHH, baseado em Nova York

 


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